A
pulseira é marrom, com detalhes prateados como a caixa. O fundo é
preto, mas os números romanos e os ponteiros são dourados. E tem
mais uma coisa que posso tirar de informação desse relógio: Eu
estou 5 minutos atrasado.
A
ideia de colocar músicas no elevador nunca me agradou, e nesse
momento ela só se mostra mais desnecessária. A diretoria está me
esperando e eu estou aqui, ouvindo essa música. O pior: parece um
toque de celular. Vou ter que demitir quem tomou essa decisão. Ou
pedir para minha nova secretaria para fazer isso, que também deve
estar me esperando la em cima para me conhecer.
Cheguei.
Despeço-me do elevador silenciosamente, mas com vigor, e vou andando
até a minha sala. Na cabine perto de minha sala, onde deveria estar
minha nova e primeira secretária, encontro uma carta com meu nome
escrito com uma caligrafia ligeiramente inclinada. Não tenho tempo
para ler nem para ter dúvidas. Pego a carta e entro em minha sala.
Minha sala. A sala
mais pontual do prédio, e nesse momento, a mais ironizada, com 3
relógios pendurados na parede: um com a caixa, números e ponteiros
pretos e um fundo branco, outro com a caixa vermelha, fundo prateado
e números e ponteiros dourados e outro todo cinza, mas com os
números e as pontas nos ponteiros em um tom mais escuro. A ironia:
seu dono está atrasado.
No centro da sala
tem uma mesa oval, e envolta dela estão todos os diretores da
empresa, que me olham como se me tirariam agora mesmo do cargo recém
adquirido, se tivessem coragem. Não nego, fazia menos de 1 semana
que havia sido nomeado presidente e o ego já subiu no céu, mas eles
vão ter que lidar com isso, e ninguém pode dizer que não foi
merecido, dei duro para chegar até aqui.
-Podemos
começar.-Disse, ao me sentar, sem dar nenhuma explicação.
-Nossas ações
caíram...
...
Estou sozinho em
minha sala. Não consigo me lembrar das palavras exatas dos
diretores, mas me lembro da cara de desespero deles querendo dar a
volta por cima. Não é por menos, gastaram a saúde para juntar
dinheiro, mas não terão dinheiro para recuperar a saúde.
Tento pensar em
outra coisa: minha namorada, em casa, fumando um cigarro e destruindo
o figado com bebida. Depois que seus pais morreram, ela nunca mais
foi a mesma... A carta! Tiro-a do bolso e abro-a.
“Sr.
Montana, gostaria de pedir desculpas pelo nosso desencontro, mas
sei que no momento certo nos encontraremos
-M.”
M.?
Li a carta, mas minhas poucas
dúvidas multiplicaram-se e
minha curiosidade é agora gigantesca. Ótimo. Como se já não
tivesse muito com o que me preocupar. Ligo o meu computador e procuro
na lista de funcionários cujo nome começão
com a letra “M”. Encontro alguns, mas ninguém é quem eu estou
procurando. Olho para o relógio
do computador, com um fundo azul e os números brancos, e descubro
que passei horas ali, pensando, lembrando e lendo. Me levanto e saio
da sala.
O
caminho de casa é tão conturbado por pensamentos que os buracos na
rua e o tempo passam despercebidos, coisa que sempre me altera. Como
é a “M.”? Que horas ela estará na empresa amanhã?
Chego em
casa e sou recebido pelo fedor de cigarro e de cerveja. Maria, minha
namorada, não está a vista. Tiro os sapatos, entro em casa e tento
abrir a porta do quarto. Trancada. Vou
até a cozinha e olho para o relógio, com a caixa, os números e os
ponteiros pretos e o fundo azul. Na mesa, vejo uma garrafa de vinho
pela metade. Não bebo há anos.
Tomo um gole.
Olho para o relógio.
Não bebo há segundos.
Dou um sorriso e continuo bebendo.
Após
um tempo, me canso da minha própria companhia e me levanto. Vou até
a porta e começo a bater.
-Abra isso agora, -digo, batendo com força na porta- abre agora,
p...
…
-Por pensarmos ansiosamente no futuro, eu e Maria nos esquecemos de
viver no presente e acabamos por não viver nem no presente nem no
futuro. -Eu disse, entre lágrimas, no seu velório.
…
-As
pessoas dizem que a mulher dele se matou- alguém cochichou.
-Ele deve estar muito mal...
Eu não queria ouvir. Os tic e os tacs dessas pessoas quebradas, com
caixas coloridas mas com o fundo vazio. Relógios quebrados que não
funcionam direito, existindo ali apenas para desvirtuar as pessoas de
seus propósitos.
Entrei no elevador e notei que ninguém entrou comigo, mas não me
importei. Sem música. Agora, já sinto falta, pois nada é pior que
esse silêncio. Acho que vou ter que demitir alguém por causa disso.
Saio do elevador e vou direto para a minha sala, sem olhar para a
cabine da minha suposta secretaria. Não estava pronto. Entrei na
minha sala.
Minha sala. Não, não mais. Essa é uma sala séria de alguém
pontual. No centro da sala tem uma mesa oval, e em volta dela tem os
diretores da empresa, que me olham como se eu não valesse a roupa
que vestisse, e diriam isso se tivessem coragem.
Antes que pudesse me sentar, eles se levantam.
…
Estou no topo do prédio. Não lembro das palavras exatas dos
diretores, mas me lembro do olhar de pena deles. Justo, estavam me
afastando do meu cargo.
Me aproximo da borda e olho para baixo. O caminho é longo, mas o
tempo é curto. Vivi minha vida como se nunca fosse morrer, e agora
morrerei como se nunca tivesse vivido.
Coloco minha mão no bolso e sinto um papel. Nele está escrito:
“Me abrace.
M.”
Agora mesmo.
E dei um passo.
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