sábado, 2 de maio de 2015

Sr. Insano

 A pulseira é marrom, com detalhes prateados como a caixa. O fundo é preto, mas os números romanos e os ponteiros são dourados. E tem mais uma coisa que posso tirar de informação desse relógio: Eu estou 5 minutos atrasado.
 A ideia de colocar músicas no elevador nunca me agradou, e nesse momento ela só se mostra mais desnecessária. A diretoria está me esperando e eu estou aqui, ouvindo essa música. O pior: parece um toque de celular. Vou ter que demitir quem tomou essa decisão. Ou pedir para minha nova secretaria para fazer isso, que também deve estar me esperando la em cima para me conhecer.
 Cheguei. Despeço-me do elevador silenciosamente, mas com vigor, e vou andando até a minha sala. Na cabine perto de minha sala, onde deveria estar minha nova e primeira secretária, encontro uma carta com meu nome escrito com uma caligrafia ligeiramente inclinada. Não tenho tempo para ler nem para ter dúvidas. Pego a carta e entro em minha sala.
 Minha sala. A sala mais pontual do prédio, e nesse momento, a mais ironizada, com 3 relógios pendurados na parede: um com a caixa, números e ponteiros pretos e um fundo branco, outro com a caixa vermelha, fundo prateado e números e ponteiros dourados e outro todo cinza, mas com os números e as pontas nos ponteiros em um tom mais escuro. A ironia: seu dono está atrasado.
 No centro da sala tem uma mesa oval, e envolta dela estão todos os diretores da empresa, que me olham como se me tirariam agora mesmo do cargo recém adquirido, se tivessem coragem. Não nego, fazia menos de 1 semana que havia sido nomeado presidente e o ego já subiu no céu, mas eles vão ter que lidar com isso, e ninguém pode dizer que não foi merecido, dei duro para chegar até aqui.
 -Podemos começar.-Disse, ao me sentar, sem dar nenhuma explicação.
 -Nossas ações caíram...
...
 Estou sozinho em minha sala. Não consigo me lembrar das palavras exatas dos diretores, mas me lembro da cara de desespero deles querendo dar a volta por cima. Não é por menos, gastaram a saúde para juntar dinheiro, mas não terão dinheiro para recuperar a saúde.
 Tento pensar em outra coisa: minha namorada, em casa, fumando um cigarro e destruindo o figado com bebida. Depois que seus pais morreram, ela nunca mais foi a mesma... A carta! Tiro-a do bolso e abro-a.
 “Sr. Montana, gostaria de pedir desculpas pelo nosso desencontro, mas sei que no momento certo nos encontraremos
 -M.”
 M.? Li a carta, mas minhas poucas dúvidas multiplicaram-se e minha curiosidade é agora gigantesca. Ótimo. Como se já não tivesse muito com o que me preocupar. Ligo o meu computador e procuro na lista de funcionários cujo nome começão com a letra “M”. Encontro alguns, mas ninguém é quem eu estou procurando. Olho para o relógio do computador, com um fundo azul e os números brancos, e descubro que passei horas ali, pensando, lembrando e lendo. Me levanto e saio da sala.
 O caminho de casa é tão conturbado por pensamentos que os buracos na rua e o tempo passam despercebidos, coisa que sempre me altera. Como é a “M.”? Que horas ela estará na empresa amanhã?
 Chego em casa e sou recebido pelo fedor de cigarro e de cerveja. Maria, minha namorada, não está a vista. Tiro os sapatos, entro em casa e tento abrir a porta do quarto. Trancada. Vou até a cozinha e olho para o relógio, com a caixa, os números e os ponteiros pretos e o fundo azul. Na mesa, vejo uma garrafa de vinho pela metade. Não bebo há anos.
 Tomo um gole.
 Olho para o relógio.
 Não bebo há segundos.
 Dou um sorriso e continuo bebendo.
 Após um tempo, me canso da minha própria companhia e me levanto. Vou até a porta e começo a bater.
 -Abra isso agora, -digo, batendo com força na porta- abre agora, p...
 -Por pensarmos ansiosamente no futuro, eu e Maria nos esquecemos de viver no presente e acabamos por não viver nem no presente nem no futuro. -Eu disse, entre lágrimas, no seu velório.
 -As pessoas dizem que a mulher dele se matou- alguém cochichou.
 -Ele deve estar muito mal...
 Eu não queria ouvir. Os tic e os tacs dessas pessoas quebradas, com caixas coloridas mas com o fundo vazio. Relógios quebrados que não funcionam direito, existindo ali apenas para desvirtuar as pessoas de seus propósitos.
 Entrei no elevador e notei que ninguém entrou comigo, mas não me importei. Sem música. Agora, já sinto falta, pois nada é pior que esse silêncio. Acho que vou ter que demitir alguém por causa disso. Saio do elevador e vou direto para a minha sala, sem olhar para a cabine da minha suposta secretaria. Não estava pronto. Entrei na minha sala.
 Minha sala. Não, não mais. Essa é uma sala séria de alguém pontual. No centro da sala tem uma mesa oval, e em volta dela tem os diretores da empresa, que me olham como se eu não valesse a roupa que vestisse, e diriam isso se tivessem coragem.
 Antes que pudesse me sentar, eles se levantam.
 Estou no topo do prédio. Não lembro das palavras exatas dos diretores, mas me lembro do olhar de pena deles. Justo, estavam me afastando do meu cargo.
 Me aproximo da borda e olho para baixo. O caminho é longo, mas o tempo é curto. Vivi minha vida como se nunca fosse morrer, e agora morrerei como se nunca tivesse vivido.
 Coloco minha mão no bolso e sinto um papel. Nele está escrito:
 “Me abrace.
 M.”
 Agora mesmo.


 E dei um passo.

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