Em
mais uma de minhas várias solitárias noites, busco refúgio nos chats virtuais,
procurando por um bom papo para passar o tempo. Infelizmente, todos do grupo de
conversa que geralmente me conecto estavam offline, estranhamente, todos eles,
há cinco minutos. Sabe aquela música que diz “festa estranha, com gente
esquisita”? Essa frase desta música deve se adequar aos meus pensamentos em
relação ao grupo e aos até então “companheiros”. Aplico essas características, de
“gente esquisita”, a todos os grupos de conversa que já me vinculei, todos são
tão diferentes entre si e esquisitos para mim, como conseguem uma convivência
harmônica com tantas divergências? Enfim, se estivesse chegado há cinco minutos
saberia o que aconteceu, mas até outrora teria que me aventurar em novos
grupos.
Após
alguns minutos de procura, acho outro bando de pessoas, que devem ser tão
estranhas quanto eu, por estar em um desses grupos em um sábado à noite...
Aquela monotonia de apresentação comum se repete várias e várias vezes, e lá
estão elas, as gírias e abreviações...
“Olá,
como vai? Oi, td bem e ctg?”
Mas há de ser criado algo que eu odeie mais que
essas gírias de internet, “td, ctg, vc, blz, vlw”, não há como manter a
paciência, é como um código, outra língua praticamente... Até que então vejo
uma luz, mas outras coisas me chamaram atenção antes.
Uma das usuárias me interessa com
a seguinte situação: ela se escondia por trás de uma foto da silhueta anônima,
aquela foto padrão dos “sem foto”, escondida na obscuridade. Enquanto todos os
outros não tinham o menor problema em me expor suas faces, por mais estranhas
que fossem. Mas por trás daquela sombra, havia uma sutileza, uma escrita tão
delicada, que fazia meu vocabulário parecer um ogro, se eu ousasse em comparar.
Fiquei pasmo nas nossas primeiras palavras trocadas, acho que foi porque me
encantei, mas ela não parecia do mesmo jeito, demorava minutos e mais minutos
para responder... Será que eu à assustei? Fiz algo errado? Só Deus sabe... O
que eu sei é que depois de eu ter praticamente me apaixonado por cada letra
escrita por essa dama, algo ocorre. Caiu a internet? Erro no servidor? Não. Ela
simplesmente foi embora. Sem um nome, sem um numero, sem um perfil do Facebook,
nada. Só me restava o usuário dela, “Cacá520”. Mas era “Ca” de que? Podia ser
Carla, Camila, Carolina, Catarina...
Depois
de uma semana me conectando, no mesmo horário, nos mesmos cinco minutos de
atraso, que por total acaso, me fizeram achar a pessoa certa, bem... Achar e
logo a perder, parece que iria continuar procurando a Cacá520 por toda a
eternidade. Curiosamente, ninguém do grupo a conhecia, muito menos
pessoalmente, ela era como um fantasma virtual, que aparecia de tempos em
tempos para dar esperanças aos corações desconfortados que precisavam de
carinho, nem que fosse um carinho através um lindo vocabulário intelectual e
uma grafia delicadamente correta.
Dias
se passam, eu estou exausto dessa procura, mas não posso desistir. Nunca. Ela
era uma de minhas poucas duas esperanças que o mundo não estava perdido, a
outra era eu, pois eu nasci com algum propósito completamente diferente de
qualquer um que vive nessa vida caótica de maneira monótona. Não que eu seja do
tipo aventureiro, que vive a vida de maneira selvagem e corajosa, só não sou
como eles.
Decidi-me,
iria mudar de estratégia, não estava a encontrando no obvio, terei que
desbravar, novamente, o mundo virtual estranho. Chega de chats virtuais, vamos
evoluir, existem milhares outros meios de comunicação. Iria achá-la em outro
lugar. Como a única informação sobre a sua personalidade era, aparentemente,
seu apelido, “Cacá”, junto com os números cinco, dois e zero. Tinham alguma
relação? Bem, teria que procurar. Minha e única e aparentemente certa escolha
foi o Twitter. Mesmo nunca concordando com aquela aperencia "feita para
adolescentes", tantas "hashtags" e "tweets", eram
coisas evoluídas demais para mim, de qualquer jeito, desistir não estava nos
planos.
Procurei
e procurei, por horas, mas achar um usuário em específico em qualquer rede
social é algo muito trabalhoso, pois independente de seu nome ser único e com a
maior adição de "w", "y" e "k" possíveis, você
achará inúmeros usuários com o mesmo nome. Dito e feito, milhares de variações
de "Cacá520", como saberia qual era ela? Alguns com outros sem
acento, variações da ordem numérica e outros vários, exatamente iguais... Até
que então, apelei para as "hashtags" das "Cacás" do
Twitter, algo pareceu muito estranho, a ordem de hashtags era a seguinte:
Caca522:
#você
Cacá550:
#não
Cacá520:
#desiste?
Com
certeza era uma mensagem dela. Ela sabia da minha busca insana, eu precisava
dela, precisava sentir a doçura de suas palavras, o amor de sua escrita.
Precisava! Enviei mais e mais tweets, o quanto foi possível. Fui dormir, minhas
costas já estavam ficando corcundas, tudo isso me deixou quebrado, mas não
tinha condições de continuar naquela noite, assim como meu notebook, que foi
usado até ter seu teclado gasto, sua bateria "viciando" e tudo já estava travado, e de mesmo modo
teria que esperar a resposta de minha Cacá520. Só me restava a cama.
No
outro dia, acordo com a expectativa lá em cima, sonhei com sua face, mesmo que
nunca tivesse visto nem mesmo a cor de um fio de cabelo seu, mas nos meus
sonhos isso era o que menos importava. Ela era bela, de qualquer maneira.
Fui
logo conferir os tweets. Ela deveria ter visto, lido, me respondido, me dito
seu nome, seu número de telefone, algo que pudesse nos conectar novamente. Ao
fazer o "login" no site, não percebo nada de novo, certamente algo
está errado. E sim, estava bem errado, nenhuma hashtag, nenhuma mensagem,
nenhuma "cacá520", muito menos suas variações, não havia mais nada.
Ainda
tinha muitas opções, Facebook, Instagram, Blogger, mySpace... Mas pra bom
entendedor, meias palavras bastam, tudo isso foi reto para o meu peito, chega.
Chega de internet, chega de chats, chega de "Cacá".
Viajei
para a fazenda do meu pai, precisava mudar de rotina, esquecer aquela mulher e
toda aquela insanidade que me tomou. Lá não havia nem um pingo de sinal de
telefone, televisão, internet e se duvidar nem o rádio pegava. A solidão que
nunca desejei para ninguém parecia o necessário para minhas dores naquele exato
momento.
Após
alguns dias, tive que ir até a cidade mais próxima para abastecer novamente os
armarios de mantimentos, ao me aproximar da zona urbana, vejo meu celular
vibrando, como nunca vibrou, estava enlouquecido (só não sei se era ele ou eu).
Vejo que são mensagens do WhatsApp, várias mensagens, de dias atrás.
-Onde
você está,querido? - Dizia a primeira das mensagens -
Sinto
falta de te ver oline, dia após dia, com sua foto esplêndida, seu sorriso torto
sempre fazia o meu se abrir. Onde está você??
Achei
que teriamos uma chance de voltarmos a conversar, pensei que acharias minhas
hashtags no twitter, sei que que não deve ser o seu estilo, mas... Tentei te
achar...
São
esses vírus malditos, consumiram meu computador, não consigo fazer mais nada,
minhas contas são apagadas e perco tudo, aparentemente, perdi você.
Onde
você está, querido?
Sei que irá me achar, então venha, volte para
mim, enquanto nos resta algo que possa nos conectar, volte.
A
cada mensagem que via mais e mais lágrimas caiam entre meu rosto. Como pude?Eu
desisti! Desisti da ternura, do carinho, do vocabulário... Entro em delírio só
em lembrar na perfeição de ser humano, tal mulher deve ser.
Liguei para o número
imediatamente. "Fora de área de cobertura ou indisponível no momento"
foi a única resposta que consegui. Aquele vírus, tudo foi aquele vírus, maldito
seja! Conectei-me na "lan-house" mais próxima para encontrá-la.
Sempre, em cada passo que dava, o vírus estava à minha frente, "conta
bloqueada", "usuário indisponível" e os malditos "Você não
quis dizer...". Mas existe algo, que ninguém iria pensar, somente minha
amada. Algo tão rústico que ninguém ousaria voltar a usar e que o maldito vírus
nunca iria se integrar. Sim! O Orkut! E lá estava ela. "Carlota Gonçalves
lhe enviou uma solicitação de amizade", junto a um "Scrap" que
dizia: "Aí está você, atrasado, como sempre, 5 minutos".
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