quarta-feira, 6 de maio de 2015

5inco Minutos

Em mais uma de minhas várias solitárias noites, busco refúgio nos chats virtuais, procurando por um bom papo para passar o tempo. Infelizmente, todos do grupo de conversa que geralmente me conecto estavam offline, estranhamente, todos eles, há cinco minutos. Sabe aquela música que diz “festa estranha, com gente esquisita”? Essa frase desta música deve se adequar aos meus pensamentos em relação ao grupo e aos até então “companheiros”. Aplico essas características, de “gente esquisita”, a todos os grupos de conversa que já me vinculei, todos são tão diferentes entre si e esquisitos para mim, como conseguem uma convivência harmônica com tantas divergências? Enfim, se estivesse chegado há cinco minutos saberia o que aconteceu, mas até outrora teria que me aventurar em novos grupos.
Após alguns minutos de procura, acho outro bando de pessoas, que devem ser tão estranhas quanto eu, por estar em um desses grupos em um sábado à noite... Aquela monotonia de apresentação comum se repete várias e várias vezes, e lá estão elas, as gírias e abreviações...
 “Olá, como vai? Oi, td bem e ctg?”
Mas há de ser criado algo que eu odeie mais que essas gírias de internet, “td, ctg, vc, blz, vlw”, não há como manter a paciência, é como um código, outra língua praticamente... Até que então vejo uma luz, mas outras coisas me chamaram atenção antes.
                Uma das usuárias me interessa com a seguinte situação: ela se escondia por trás de uma foto da silhueta anônima, aquela foto padrão dos “sem foto”, escondida na obscuridade. Enquanto todos os outros não tinham o menor problema em me expor suas faces, por mais estranhas que fossem. Mas por trás daquela sombra, havia uma sutileza, uma escrita tão delicada, que fazia meu vocabulário parecer um ogro, se eu ousasse em comparar. Fiquei pasmo nas nossas primeiras palavras trocadas, acho que foi porque me encantei, mas ela não parecia do mesmo jeito, demorava minutos e mais minutos para responder... Será que eu à assustei? Fiz algo errado? Só Deus sabe... O que eu sei é que depois de eu ter praticamente me apaixonado por cada letra escrita por essa dama, algo ocorre. Caiu a internet? Erro no servidor? Não. Ela simplesmente foi embora. Sem um nome, sem um numero, sem um perfil do Facebook, nada. Só me restava o usuário dela, “Cacá520”. Mas era “Ca” de que? Podia ser Carla, Camila, Carolina, Catarina...
                Depois de uma semana me conectando, no mesmo horário, nos mesmos cinco minutos de atraso, que por total acaso, me fizeram achar a pessoa certa, bem... Achar e logo a perder, parece que iria continuar procurando a Cacá520 por toda a eternidade. Curiosamente, ninguém do grupo a conhecia, muito menos pessoalmente, ela era como um fantasma virtual, que aparecia de tempos em tempos para dar esperanças aos corações desconfortados que precisavam de carinho, nem que fosse um carinho através um lindo vocabulário intelectual e uma grafia delicadamente correta.
                Dias se passam, eu estou exausto dessa procura, mas não posso desistir. Nunca. Ela era uma de minhas poucas duas esperanças que o mundo não estava perdido, a outra era eu, pois eu nasci com algum propósito completamente diferente de qualquer um que vive nessa vida caótica de maneira monótona. Não que eu seja do tipo aventureiro, que vive a vida de maneira selvagem e corajosa, só não sou como eles.
                Decidi-me, iria mudar de estratégia, não estava a encontrando no obvio, terei que desbravar, novamente, o mundo virtual estranho. Chega de chats virtuais, vamos evoluir, existem milhares outros meios de comunicação. Iria achá-la em outro lugar. Como a única informação sobre a sua personalidade era, aparentemente, seu apelido, “Cacá”, junto com os números cinco, dois e zero. Tinham alguma relação? Bem, teria que procurar. Minha e única e aparentemente certa escolha foi o Twitter. Mesmo nunca concordando com aquela aperencia "feita para adolescentes", tantas "hashtags" e "tweets", eram coisas evoluídas demais para mim, de qualquer jeito, desistir não estava nos planos.
                Procurei e procurei, por horas, mas achar um usuário em específico em qualquer rede social é algo muito trabalhoso, pois independente de seu nome ser único e com a maior adição de "w", "y" e "k" possíveis, você achará inúmeros usuários com o mesmo nome. Dito e feito, milhares de variações de "Cacá520", como saberia qual era ela? Alguns com outros sem acento, variações da ordem numérica e outros vários, exatamente iguais... Até que então, apelei para as "hashtags" das "Cacás" do Twitter, algo pareceu muito estranho, a ordem de hashtags era a seguinte:

                Caca522:
                #você
                Cacá550:
                #não
                Cacá520:
                #desiste?

                Com certeza era uma mensagem dela. Ela sabia da minha busca insana, eu precisava dela, precisava sentir a doçura de suas palavras, o amor de sua escrita. Precisava! Enviei mais e mais tweets, o quanto foi possível. Fui dormir, minhas costas já estavam ficando corcundas, tudo isso me deixou quebrado, mas não tinha condições de continuar naquela noite, assim como meu notebook, que foi usado até ter seu teclado gasto, sua bateria "viciando"  e tudo já estava travado, e de mesmo modo teria que esperar a resposta de minha Cacá520. Só me restava a cama.
                No outro dia, acordo com a expectativa lá em cima, sonhei com sua face, mesmo que nunca tivesse visto nem mesmo a cor de um fio de cabelo seu, mas nos meus sonhos isso era o que menos importava. Ela era bela, de qualquer maneira.
                Fui logo conferir os tweets. Ela deveria ter visto, lido, me respondido, me dito seu nome, seu número de telefone, algo que pudesse nos conectar novamente. Ao fazer o "login" no site, não percebo nada de novo, certamente algo está errado. E sim, estava bem errado, nenhuma hashtag, nenhuma mensagem, nenhuma "cacá520", muito menos suas variações, não havia mais nada.
                Ainda tinha muitas opções, Facebook, Instagram, Blogger, mySpace... Mas pra bom entendedor, meias palavras bastam, tudo isso foi reto para o meu peito, chega. Chega de internet, chega de chats, chega de "Cacá".
                Viajei para a fazenda do meu pai, precisava mudar de rotina, esquecer aquela mulher e toda aquela insanidade que me tomou. Lá não havia nem um pingo de sinal de telefone, televisão, internet e se duvidar nem o rádio pegava. A solidão que nunca desejei para ninguém parecia o necessário para minhas dores naquele exato momento.
                Após alguns dias, tive que ir até a cidade mais próxima para abastecer novamente os armarios de mantimentos, ao me aproximar da zona urbana, vejo meu celular vibrando, como nunca vibrou, estava enlouquecido (só não sei se era ele ou eu). Vejo que são mensagens do WhatsApp, várias mensagens, de dias atrás.
                -Onde você está,querido? - Dizia a primeira das mensagens -
                Sinto falta de te ver oline, dia após dia, com sua foto esplêndida, seu sorriso torto sempre fazia o meu se abrir. Onde está você??
                Achei que teriamos uma chance de voltarmos a conversar, pensei que acharias minhas hashtags no twitter, sei que que não deve ser o seu estilo, mas... Tentei te achar...
                São esses vírus malditos, consumiram meu computador, não consigo fazer mais nada, minhas contas são apagadas e perco tudo, aparentemente, perdi você.
                Onde você está, querido?
Sei que irá me achar, então venha, volte para mim, enquanto nos resta algo que possa nos conectar, volte.
                A cada mensagem que via mais e mais lágrimas caiam entre meu rosto. Como pude?Eu desisti! Desisti da ternura, do carinho, do vocabulário... Entro em delírio só em lembrar na perfeição de ser humano, tal mulher deve ser.
               Liguei para o número imediatamente. "Fora de área de cobertura ou indisponível no momento" foi a única resposta que consegui. Aquele vírus, tudo foi aquele vírus, maldito seja! Conectei-me na "lan-house" mais próxima para encontrá-la. Sempre, em cada passo que dava, o vírus estava à minha frente, "conta bloqueada", "usuário indisponível" e os malditos "Você não quis dizer...". Mas existe algo, que ninguém iria pensar, somente minha amada. Algo tão rústico que ninguém ousaria voltar a usar e que o maldito vírus nunca iria se integrar. Sim! O Orkut! E lá estava ela. "Carlota Gonçalves lhe enviou uma solicitação de amizade", junto a um "Scrap" que dizia: "Aí está você, atrasado, como sempre, 5 minutos".

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